Por: Fabiana Picorelli
O transporte rodoviário de cargas vive um momento que exige mais do que capacidade de negociação. Exige uma mudança na maneira como empresas e transportadoras constroem suas relações comerciais.
Os números ajudam a entender esse cenário. Segundo a NTC&Logística, o Índice Nacional de Custos do Transporte de Carga Fracionada (INCTF) acumulou alta de 9,18% nos 12 meses encerrados em setembro de 2026. Já o índice referente às cargas de lotação registrou aumento de 6,84% no mesmo período.
Esses indicadores mostram uma pressão importante sobre os custos operacionais do setor. Mas também revelam uma questão que considero ainda mais relevante: até quando a contratação de transporte será tratada prioritariamente como uma disputa pelo menor preço?
É claro que custo importa. E muito. Mas, em uma cadeia produtiva cada vez mais exigente, o preço do frete é apenas uma parte da equação. É preciso considerar que uma entrega que atrasa pode comprometer o abastecimento de uma loja. Uma matéria-prima que não chega no momento certo pode afetar o planejamento industrial. Uma operação sem previsibilidade pode exigir estoques maiores, gerar retrabalho e comprometer o relacionamento com o cliente final.
Tudo isso também tem custo. E nem sempre ele aparece na tabela de frete.
A eficiência começa antes do transporte
Na minha visão, uma das mudanças mais importantes para o setor é deixar de discutir apenas quanto custa transportar e começar a avaliar como transportar melhor. Isso significa compreender as particularidades de cada operação, analisar a frequência dos embarques, os destinos, as necessidades de prazo e as oportunidades de otimização.
Em determinados cenários, a carga fracionada pode oferecer uma composição mais eficiente. Em outros, a lotação é a alternativa mais adequada. Há ainda situações em que a urgência justifica uma solução específica.
Não existe uma resposta única. E é justamente por isso que a capacidade de compreender o negócio do cliente se torna tão importante quanto a capacidade operacional de realizar o transporte.
O futuro das transportadoras também passa pela capacidade de aconselhar
Acredito que estamos diante de uma transformação no papel das empresas de transporte.
O mercado continuará exigindo infraestrutura, tecnologia, segurança e eficiência. Mas exigirá, cada vez mais, parceiros capazes de contribuir para decisões logísticas mais inteligentes.
Isso demanda conhecimento técnico, proximidade com o cliente, capacidade de adaptação e uma visão que ultrapasse a execução do serviço contratado.
Na Picorelli, nossa trajetória de 95 anos nos ensinou que a longevidade de uma empresa depende justamente de sua capacidade de evoluir.
Acompanhamos transformações profundas na indústria, no comércio, nas tecnologias e nos modelos de distribuição. E continuamos avançando porque entendemos que as necessidades dos nossos clientes também mudam.
A experiência só se transforma em diferencial competitivo quando é utilizada para encontrar respostas melhores para os desafios do presente.
Uma nova conversa entre embarcadores e transportadoras
Diante de um cenário de custos pressionados, acredito que o caminho mais sustentável não seja simplesmente transferir essa pressão de um lado para o outro.
É construir relações comerciais mais transparentes, analisar oportunidades de eficiência e buscar soluções que façam sentido para ambos.
Isso exige uma mudança de perspectiva.
Para os embarcadores, significa avaliar o transporte não apenas como uma despesa, mas como uma atividade que influencia diretamente a competitividade do negócio.
Para as transportadoras, significa assumir uma postura mais consultiva, com responsabilidade sobre a qualidade das soluções oferecidas.
Afinal, a pergunta que deveria orientar essa relação não é apenas “quanto custa o frete?”.
É também: “quanto valor uma operação logística bem planejada pode gerar para o meu negócio?”
Acredito que as empresas que souberem responder a essa pergunta estarão mais preparadas para os próximos anos.
Porque, em um mercado cada vez mais complexo, transportar bem continua sendo fundamental. Mas ajudar o cliente a tomar decisões melhores pode ser o verdadeiro diferencial.
